A cada dia a sua pena.
Ou a cada dia a sua pedra ?
A mais recente vem embrulhada com a capa de defesa da própria Regionalização.
O argumento rezaria assim : é prematuro criar um partido regional ; primeiro dever-se-ia obter a Regionalização e só depois construir o partido ; enfim, um partido prematuro só dificultaria e atrasaria a Regionalização.
Convenhamos que a criatividade do raciocínio (cuja fundamentação me escapa, mas essa omissão não parece incomodar os seus autores) não está longe daquela polémica antiga sobre a precedência do ovo ou da galinha. Ou será uma reencarnação do paradoxo de Zenão para quem seria impossível chegar ao destino visto que faltaria sempre percorrer metade da distância que dele nos separava ? Adiante.
Admitamos a sinceridade da dúvida ou da crítica. Aliás, nem pode ser de outra maneira, pois imaginar que o seu autor nos imputaria o desígnio secreto de sabotar a Regionalização, seria aceitar o insulto e especular subjectividades.
A vida social, a dinâmica das relações humanas e sobretudo a luta política como expressão de defesa de interesses e de direitos não se compadece com abordagens biológicas e naturalistas, para as quais a flor tem de preceder o fruto. Transpôr para a dinâmica social « essa ordem da natureza » é um daqueles erros clássicos dos que barafustam contra os mercados enlouquecidos ou dos que acusam o Povo de ser estúpido por não se adaptar nem respeitar a bela engenharia social que os iluminados arquitectaram no remanso de confortáveis gabinetes.
É certo que um general deve velar pelo melhor momento e pelas circunstâncias mais favoráveis, mas se o adversário o surpreende numa ravina ou se as suas próprias tropas avançam num élan combativo, é seu dever pôr-se à cabeça, a não ser que seja um poltrão e opte por ficar na retaguarda a esbracejar, a protestar contra a « batota » do inimigo ou contra a precipitação dos seus próprios tenentes.
A política não tem horas marcadas. Acontece.
Trazer para o combate político uma postura determinista que nos obrigasse a esperar pelas alegadas ‘condições ideiais’, pelas ‘necessidades objectivas’, pelas intendências adequadas, é enganar-se de comércio : mais vale ir vender tremoços na praça e levar contabilista.
Nada está escrito de avanço, nem a derrota nem a vitória.
Não há biopolítica. E há sempre espaço para criar um acto, pois não há momentos « certos ». Esperar por eles é a melhor maneira de nada acontecer. Em boa verdade, e não tenhamos medo de o dizer, é preciso ser « prematuro » pois é nessa antecipação que nasce o “momento certo”, e não o inverso.
Por todas estas razões, acusar o Movimento Pró Partido do Norte de ser um nado-prematuro parece-me, além de pura míopia política, absolutamente irrelevante como discussão neste momento. Ele está aí. Resmungar contra isso é aceitável num encenador de teatro, habituado a gerir os tempos dos seus figurantes, e faz-me lembrar aquele oficial do Porto de Leixões que ao receber o aviso de que um navio de grande porte estava junto da praia de Fuzelhas, gritava por telefone ao comandante « Você não pode estar aí ! ».
Dito isto, admito que sejamos inconvenientes. Claro que o somos, até porque ainda recentemente ouvimos o Assis prever que Rui Rio seria um bom Presidente da região. Estava-lhes tudo a correr tão bem, as pessoas entretidas e distraídas, era só esperar pelos fins de mandato e fazer bailar cadeiras, enquanto nos ofereceriam uma pseudo-região, qual prenda que era suposto agradecermos.
Pois ainda bem que somos inconvenientes. É próprio do povo ser « inconveniente », sobretudo quando não é convidado.
Pelo Norte e pelo país !
Francisco de Sousa Fialho